Segundo Turno

“O grande eleitor dessa disputa será o governador Eduardo Campos. Mas não se deve perder a perspectiva de que o eleitor pode decidir sem a influência dos atores políticos influentes”
Jornal Extra – O senhor concorda que vários municípios de Pernambuco já começaram a construção dos palanques eleitorais, visando a disputa de 2012?
Adriano Oliveira – Certamente que sim, porque as eleições ocorrerão já no próximo ano, sendo o momento oportuno às articulações políticas. Não só das articulações, mas também da construção de um planejamento estratégico que contribua com o sucesso de determinado candidato. Portanto, certamente, esse é o momento oportuno de fazer pesquisas eleitorais. Além disso, é importante destacar a disputa em três municípios de Pernambuco. No Recife, existe a articulação, por parte da oposição e situação, sobre quais serão os nomes da disputa, sabendo que Eduardo Campos será o grande eleitor, não só da Capital, mas também de outras cidades, por causa da sua avaliação positiva a frente do Governo do Estado. Não se pode deixar de considerar a eleição em Caruaru, onde pode haver uma disputa entre José Queiroz e a ex-deputada estadual Miriam Lacerda, que entra co m chances claras de obter êxito no pleito. Também é importante destacar a disputa em Petrolina, entre Júlio Lóssio contra alguém do grupo de Fernando Bezerra Coelho. Fica a expectativa, se o ministro lançará o filho (o deputado federal Fernando Bezerra Coelho Filho) ou ofertará outro candidato à população daquela cidade. Mas, enfim, as articulações já foram iniciadas.
Jornal Extra – Mas parece que os atuais prefeitos que podem tentar reeleição, não desejam a antecipação da disputa, e pretendem evitar ao máximo a construção dos palanques?
Adriano Oliveira – Eles dizem isso da boca pra fora. Na verdade, todos os gestores que serão candidatos à reeleição já estão se articulando, no sentido de trazer partidos e atores políticos para sua base aliada, ainda articulando para evitar que determinados nomes sejam seus adversários.
Jornal Extra – Apenas três cidades de Pernambuco tem segundo turno (Recife, Olinda e Jaboatão dos Guararapes). Com quase 200 mil eleitores, Caruaru também terá a possibilidade de levar o pleito para o segundo turno. O segundo turno eleitoral será bom para a cidade?
Adriano Oliveira – O instrumento do segundo turno é benéfico à democracia, porque permite que o eleitor tenha duas oportunidades para decidir-se e pensar quanto a sua escolha. O segundo turno também é bom à democracia no sentido de reflexão e, claro, faz com que um candidato não vença a eleição com a disputa mínima de votos. Quando observamos a perspectiva de existir o segundo turno na eleição municipal de Caruaru, dependendo do número de candidatos, certamente, podemos prever que, caso seja confirmado, há possibilidade de dois candidatos se enfrentarem além do primeiro turno.
Jornal Extra – A possibilidade de segundo turno, então, deve alterar o quadro político e as estratégias a serem usadas pelos candidatos?
Adriano Oliveira – Sim. A estratégia de José Queiroz, caso venha a ocorrer o segundo turno em Caruaru, será de construir uma base aliada mais ampla. Obviamente, é mais vantajoso para Queiroz que se tenha um número menor de candidatos na disputa da cidade. Se isso vier a ocorrer, a disputa em Caruaru, no caso de segundo turno, favorece a ex-deputada Miriam Lacerda, já que ela tem reais condições de enfrentar Queiroz. Ainda existe um desafio para José Queiroz, que será evitar uma possível candidatura de Raquel Lyra, filha do vice-governador João Lyra Neto. Se Raquel entrar na disputa poderá prejudicar consideravelmente as chances de Queiroz, inclusive, de que ele não chegue ao segundo turno.
Jornal Extra – Nesse quadro, então, a oposição se beneficia. Mesmo fragilizada, isso pode criar as chances reais de vitória, que o senhor diz?
Adriano Oliveira – Não se pode falar claramente que a oposição, nas eleições municipais, está fragilizada. Isso depende do contexto de cada município. Por exemplo, no Recife, o governador Eduardo Campos pode caminhar aliado com o PT. Mas essa negociação vai depender do que Eduardo vislumbrar para as Eleições de 2014. Ou seja, o que o PT irá oferecer a Eduardo em 2014, no âmbito nacional. Nesse sentido, o governador poderá ter mais de um candidato, ou não entrar na disputa do Recife. Do mesmo modo, pode acontecer em Caruaru. Existe a hipótese de que o PDT convidou o deputado federal João Paulo para ser candidato no Recife. Eu não sei se isso é fato ou apenas especulação. Talvez isso possa ter prejudicado as relações do PDT com o governo num todo. Isso é uma hipótese. Por outro lado, é possível fazer com que a oposição que está sendo feita na Assembleia Leg islativa não seja uma oposição que não atraia a força contraria do governador na disputa em Caruaru. Também não se deve deixar de considerar que a eleição municipal tem uma particularidade. Ou seja, o eleitor vai votar nas pessoas que estão preocupadas com o município. É claro, volto a afirmar: o grande eleitor dessa disputa será o governador Eduardo Campos. Mas não se deve perder a perspectiva de que o eleitor pode decidir sem a influência dos atores políticos relevantes.
Jornal Extra – Então, atuação do governo do Estado pode ser decisivo, tanto na construção dos palanques, quanto ao apoio de nomes?
Adriano Oliveira – Claro. Primeiro, porque o governador Eduardo Campos planeja fazer o seu sucessor. Ele só não irá se interessar em fazer o sucessor, caso venha a ser candidato a vice-presidente da República na chapa do PT. Com isso, Eduardo pode aceitar que o candidato a sucessão seja do PT. Como ele ainda não tem essa perspectiva consolidada, porém, Eduardo vai querer eleger o maior número de prefeitos da base aliada através do PSB.
Jornal Extra – Os candidatos proporcionais se valorizam e tem interesse em criar um segundo turno?
Adriano Oliveira – Não se pode afirmar se eles se interessam mais ou não. O que importa, para o candidato proporcional, é a eleição no primeiro turno. Ele depende do apoio do candidato majoritário. Esse apoio pode ser financeiro, estrutural ou material. Na verdade, a eleição com dois turnos prejudica o candidato majoritário, já que, no instante em que ele passa para o segundo turno, pode perder o apoio de parte dos proporcionais. Esses já foram eleitos, ou perderam a eleição e, consequentemente, não tem mais interesse de continuar pedindo voto para o candidato majoritário.
Jornal Extra – Em Caruaru, há o caso de dissidência de vereadores da base governista. Comenta-se, ainda, que os dissidentes pretendem criar uma terceira força, que se sobreponha aos grupos dos tradicionais caciques locais. Como essa dissidência pode se comportar nos casos de primeiro ou segundo turno?
Adriano Oliveira – Certamente, o prefeito José Queiroz vai trabalhar para que o maior número de partidores apóie a sua candidatura e reduza o número de competidores na disputa. O importante para Queiroz é ter uma eleição disputada no primeiro turno, e não no segundo. No entanto, em Caruaru, vislumbro apenas três forças políticas, nesse instante: o prefeito José Queiroz, Miriam Lacerda e, agora, surgindo um novo grupo – que pode ser dissidente – no caso de Raquel Lyra. Raquel é filha do vice-governador do Estado, teve uma excelente votação para deputada estadual, é jovem, pode adequar um discurso para conquistar o eleitorado e representar uma terceira força na cidade. No entanto, as pesquisas são necessárias para verificar como o eleitor irá entender a ida de Raquel para ser oposição a Queiroz. Isso diante do fato de que os Lyra e Queiroz, tradicionalmente, estão juntos, disputando a eleição contra o grupo de Tony Gel. Então, a ida de Raquel pode dividir os votos desse grupo, prejudicando a ambos, ou enfraquecer Queiroz. Portanto, as pesquisas eleitorais são necessárias para identificar às conseqüências da possível candidatura de Raquel à prefeitura de Caruaru. A minha hipótese é de Raquel prejudica José Queiroz.
Jornal Extra – Atualmente, Raquel Lyra é secretária de Infância e Juventude do Estado. Ocupar cargos de primeiro escalão facilita lançamento do nome para 2012?
Adriano Oliveira – Depende da estrutura Secretaria.
Jornal Extra – O senhor concorda que o vencedor, no caso de primeiro turno, entraria no Palácio Jaime Nejaim com um salto mais alto do que deve?
Adriano Oliveira – Claro. Por exemplo, se a pessoa ganha uma eleição no primeiro turno, no Recife, certamente, se transforma num grande eleitor para 2014. Em Caruaru ocorrerá o mesmo.
Adriano Oliveira – cientista político e Coordenador do Núcleo de Estudos de Estratégias e Política Eleitoral da UFPE
