Direitos iguais

Alguns programas religiosos promovem campanhas difamatórias contra o deputado Jean Wyllys, construindo a imagem dele como ‘inimigo do cristianismo’. “Venho da Igreja Católica e minha formação é católica”, Jean Wyllys.

Com eixo central do mandato direcionado à abrangência dos direitos humanos, o deputado federal pelo PSOL (RJ), Jean Wyllys, deve acentuar a luta pela criminalização da homofobia, em 2012. Em entrevista ao editor deste Blog, o deputado reafirmou que alguns segmentos religiosos continuam incentivando a disseminação da violência contra os homossexuais, aproveitando-se das concessões públicas de difusão dos canais de TV e de rádio. Os programas também promovem campanhas difamatórias Jean Wyllys, construindo a imagem dele como o ‘inimigo do cristianismo’. O deputado ainda critica o governo da presidente Dilma Rousseff (PT) pela frouxidão e inércia, quando o assunto é ‘Direitos Humanos’.

As discussões sobre a união entre casais homossexuais criaram divergências, em todo o País, na sociedade e na classe política, levantando questionamentos e interpretações. Por que a discussão permanece ainda sem o amparo de uma lei e também não entra na Pauta da Câmara Federal?

Jean Wyllys – Não entra, oficialmente, na Pauta. Mas o debate foi estabelecido, antes mesmo da decisão do STF (que reconheceu a união estável entre pessoas homossexuais, em outubro de 2011). Ainda no início do meu mandato, fiz pronunciamentos sobre a propositura de uma emenda constitucional que estenderia o direito ao casamento civil aos homossexuais. A partir daí, o debate se instaurou na Câmara, mesmo que a PEC não tenha entrado na Pauta. Tenho esperança, em relação a essa Pauta. Quanto às divergências interpretativas, que prefiro chamar de distorções propositadas, elas são usadas para confundir a opinião pública, principalmente, nos setores conservadores da sociedade ligada às religiões cristãs. Inventa-se que os homossexuais estão pleiteando o direito ao casamento religioso. Isso não é verdade. Queremos o direito civil. No Estado Democrático de Direito o conjunto da população tem que ter acesso a todos os direitos com os mesmo nomes. Do contrário, a gente não pode dizer que temos uma democracia. O sentido da batalha é para garantir, a nós – os homossexuais – o direito que está garantido aos heterossexuais, com a união civil, na qual se dissolve pelo divórcio. Com esse, passamos ao direito de constituir uma família, e, portanto, a ter a proteção do Estado. Se, por um lado, alguns setores da sociedade confundem a opinião pública com mentiras e campanhas difamatórias, por outro, nós avançamos na Pauta, com esclarecimentos em público e pronunciamentos em favor casamento civil, além de recolher as assinaturas à respectiva PEC.

A revista Isto É destacou (edição nº 2202, 20 jan. de 2012) que você “influenciará como ninguém, em 2012, a luta pela criminalização da homofobia”. Como essa luta será ampliada?

Jean Wyllys – O eixo central do meu mandato é a defesa à abrangência dos direitos humanos. Entre estes, fazem parte os direitos dos homossexuais, violados sistematicamente no Brasil. O direito à vida, acesso ao trabalho e dignidade, dá-se por conta da homofobia. A minha atuação, não somente às proposições legislativas e apreciação dos Projetos que tramitam nas comissões das quais faço parte, segue o combate à homofobia. Eu pretendo convencer a sociedade homofóbica a assumir o preconceito. Essa é a única maneira de enfrentar, assumindo a intolerância. Parte significativa da sociedade brasileira é homofóbica e não assume. Talvez essa parte da sociedade brasileira não sabe nem mesmo o que é homofobia, traduzindo apenas à idéia no ato de matar, arrancar os olhos e corta o pênis podo-o na boca do corpo da própria vítima. Esse é um crime hediondo que acontece contra os homossexuais, a cada instante, no País. A homofobia tem essa parte letal, mas o preconceito também aparece. Por exemplo, ao impedir um casal de se expressar publicamente em restaurantes ou nos corredores dos shoppings Center. Em caso ressente, em Salvador, um casal foi expulso a tapas e pontapés. A homofobia também surge quando um aluno precisa deixar a escola, por sofrer ‘bulling’. Há professores que entram em sala de aula e ignoram a existência de estudantes homossexuais, ofendendo a dignidade, ou ainda constrangendo-o, ao exigir que assuma outra identidade que não a dele própria. Apontar a homofobia, através dos discursos, palestras, audiências públicas, entre os pronunciamentos, nos encontros da sociedade LGBT de todo o País, continuará sendo feita também neste ano. Eu fui eleito pelo Estado do Rio de Janeiro, mas a demanda teve direcionamento do Oiapóque (AP) ao Chuí (RS). Na medida do possível, atendi a demanda, e continuarei dessa forma em 2012. Nesse sentido, talvez, a revista IstoÉ tenha interpretado que eu vou influenciar a luta contra a homofobia.

O deputado já afirmou que alguns segmentos de líderes de igrejas devem ser acionados, com punição estabelecida em lei, pelos ataques lançados aos homossexuais em programas religiosos na TV e no rádio. Os pastores oferecem tratamento de “recuperação” ou “cura” da homossexualidade.

Jean Wyllys – A minha rota de colisão com esses padres e pastores é, justamente, pelo incentivo que eles fazem. Ou seja, usam das concessões públicas de difusão dos canais de TV e rádio para discursar contra a homossexualidade, incentivando e espalhando uma onda de violência contra os homossexuais no Brasil. Disse e reafirmo, esses padres e pastores vem a público, através do rádio, da TV e em jornais impressos, alegando que o homossexual é abominável e justificando a violência praticada contras essa significativa parcela da sociedade. Eles não podem se eximir da cumplicidade desses crimes. O discurso anterior ao crime, proferido por muitos padres e pastores é ‘religioso-facista’. É importante dizer que não são todos os padres e pastores que promovem esse tipo de incentivo. O movimento LGBT tem muitos aliados na Igreja Católica e, também, entre os evangélicos. Inclusive, existem Igrejas Inclusivas, Calvinistas, com o protestantismo histórico, que não são contrários à dignidade dos homossexuais. O pai do ministro Alexandre Padilha (Saúde) lidera, em São Paulo, um movimento integrado por protestantes históricos (Batistas, Anglicanos e Luteranos), que luta contra a homofobia. Então, não podemos incluir toda a comunidade cristã. A referência aponta para os líderes ‘religiosos-fundamentalistas’, que incentivam o fanatismo dentro das suas comunidades. Por se tratar de instituições religiosas, esse segmento se beneficia da isenção fiscal – prevista na Constituição Federal – deixando de pagar impostos e arrecadando muito dinheiro. Esse dinheiro está sendo usado para promover campanhas difamatórias contra mim, colocando-me a imagem de ‘inimigo do cristianismo’. Venho da Igreja Católica e essa é minha formação.

O senhor já declarou, publicamente, que considera que o governo federal avançou muito pouco na garantia de direitos humanos. O que lhe decepcionou?

Jean Wyllys – Continuo considerando o Governo Dilma com pouquíssimo avanço, nesse ponto. A presidenta (Dilma) disse, na abertura dos trabalhos do Congresso Nacional, em 2011, que seria ‘uma defensora intransigente, pelos direitos humanos’. Foram as palavras dela. Porém, na abertura da Câmara, na semana passada, a frase não apareceu mais. Ou seja, Dilma não renovou seu compromisso, pois os direitos humanos foram negligenciados, no geral. É inegável o avanço feito pelo PT, durante o Governo Lula (2003-2010), em referência ao governo passado do PSDB (1994-2002). Ainda assim, o avanço foi muito pequeno, por tratar-se de um governo do PT. Eu esperava que Dilma, por ser mulher, promovesse avanços, principalmente, quanto aos direitos humanos. O ano passado foi um período inerte. Para permanecer no Poder, o PT teve que compor com uma base conservadora. Com isso, sei que o governo do PT não vai avançar na questão dos direitos humanos.

* A entrevista completa com o deputado federal Jean Wyllys você poderá ler na edição 418 (11 fev. de 2012) do Jornal Extra de Pernambuco

Tags:, , ,

1 Resposta


  1. Rina on 07 mai 2012

    Claudair Costa Ribeiro disse: abril 21, 2011 e0s 9:37 pmPLC 122 , Liberdade e DemocraciaA democracia ne3o deve ser apaens representativa ou participativa, mas igualmente voltada e0 construe7e3o comum de alternativas.(Pierre Rosanvallon)Cresci em um lar protestante pentecostal e esudando em uma escola sem bandeira, mas, de doutrina catolica, sei o quanto e9 dificil ser minoria e ser bulinado, por ne3o participar das rezas diarias antes de se comee7ar as aulas, das atividades esportivas, das dane7as de quadrilhas, enfim de quase todas atividades sociais. Hoje os evange9licos ne3o se3o mais te3o minoria assim, mas ainda ocupam essa posie7e3o os homossexuais, os testemunhos de Jeove1, como foi o caso do assassino da escola de Realengo-RJ, e outros.Ne3o pode ser o caso de agora o oprimido se tornar opressor, ao mesmo tempo que ne3o pode haver um retrocesso na liberdade que este segmento conquistou em viver e defender sua fe9.A PLC 122 e9 vaga, exemplificando, se uma pessoa tem um estabelecimento comercial (ou mesmo em sua casa), contrata uma pessoa, e, mais tarde (ainda dentro do peredodo de experieancia, para ne3o desviar o foco para questf5es trabalhistas), resolve ne3o manter este empregado porque descobre que ele tem um comportamento sexual promedscuo (hetero ou homossexual) que ne3o condiz com os princedpios defendidos na instituie7e3o (ou simplesmente por seu propriete1rio), acontecere1 o seguinte: se se tratar de promiscuidade heterossexual ne3o havere1 crime (talvez, uma discusse3o trabalhista), pore9m, se se tratar de um indivedduo homossexual, o empregador podere1 ser preso, e pode dar interpretae7e3o como perseguie7e3o ao homosexual , afirma a procuradora Mheliza Machado.Portanto defendo que a PLC 122 seja discutida e reeditada de forma a encontrar uma alternativa comum que atenda o direito dos homossexuais sem tirar dos religiosos sua liberdade de expressar opnie3o sobre conduta de comportamento. Responder


Deixe seu comentário