O novo partido
Em entrevista ao Extra, André de Paula* revela que prefeitos, vice-prefeitos e vereadores pernambucanos devem aderir ao PSD nos próximos dias.

“A origem do PSD é o Democratas. Dos atuais 36 deputados federais que já estão filiados, ou que assinaram a ata de criação do partido, ao menos 16 vieram do DEM”, André de Paula*
Jornal Extra – Sua ida para o PSD (Partido Social Democrata) pegou os políticos de Pernambuco de surpresa. O senhor concorda?
André de Paula – É verdade. Mas não foi uma decisão fácil. Eu tinha uma construção de vida dentro do Democratas, antigo PFL – partido que presidi por 17 anos. Tenho uma história de relação estreita com as principais lideranças políticas do partido. Posso dizer que construí o partido em Pernambuco. Essa relação vai além do político, sendo pessoal. Agora, sinto a motivação de construir um novo partido político, emprestando ao PSD um pouco da minha contribuição, levando a cara que eu quero em um partido. Só o convite que me foi feito pelo prefeito (São Paulo) Gilberto Kassab, que foi meu companheiro na Câmara Federal (1999-2005), e que insistiu para que eu aderisse, fez com que eu pudesse dar a guinada e começar um momento novo na minha vida pública.
Jornal Extra – Em 2009, o senhor foi o vice-presidente nacional do DEM e agora estava prestes a retornar a presidência estadual do Democratas. Da noite para o dia, tomou a decisão de presidir outro partido. Comenta-se que o comando do PSD de Pernambuco lhe foi entregue por indicação do governador Eduardo Campos. Como foram os bastidores do convite para ingressar no PSD?
André de Paula – De fato, esse foi um elemento (retornar a presidência do DEM-PE) que agregou dificuldades. Quase 45 dias antes de aceitar ir para o PSD, conversei com o prefeito Kassab, que fez o convite pela primeira vez. Naquele momento, coloquei a ele a minha dificuldade, apesar de achar um convite extremamente interessante, como um desafio novo a ser enfrentado. A questão envolvia amadurecimento da proposta, meu relacionamento com as lideranças do DEM. Nesse intervalo de pouco mais de um mês, recebi o convite feito por Mendonça Filho (presidente estadual do DEM) para voltar a conduzir o Democratas. Tive que optar entre os dois caminhos. Foi uma decisão pessoal – repito: penosa. Mas estou convencido de que acertei ao adotá-la, porque tenho muita confiança nesse projeto e acredito que dará certo. Esse é um momento novo e positivo, criado na vida pública e política nacional e, em especial, pernambucana. Farei o melhor dos meus esforços para que esse projeto dê certo.
Jornal Extra – A criação do PSD atinge diretamente o DEM e alguns setores do PSDB. A maioria dos adesistas está pulando para fora do barco Democratas. Porque?
André de Paula – A origem do PSD é o Democratas. Dos atuais 36 deputados federais que já estão filiados, ou que assinaram a ata de criação do partido, ao menos 16 vieram do DEM. O presidente nacional do PSD, Gilbeto Kassab, era uma das maiores lideranças do DEM. Ao lado de Kassab, há o presidente de honra do PSD, Jorge Bonhaousen. Por tudo isso, é natural que o partido que mais sinta, no que diz respeito a defecções, seja o DEM. Mas não tenho dúvidas, provado em números, que teremos adesões de muitos partidos, desde os que estão na base de governo até os de oposição. Não será apenas o DEM que perderá quadros para o PSD. Acho que isso é o que me anima e dimensiona o projeto, fazendo-o vitorioso. Mesmo antes de existir legalmente, hoje, já temos dois governadores (Osmar Aziz-AM e Raimundo Colombo-SC), cinco vice-governadores (Rômulo Gouveia-PB, Guilherme Afif-SP, Otto Alencar-BA, Robinson Faria-RN e Domingos Filho-CE), três senadores (Kátia Abreu-GO, Jayme Campos-MT e Ciro Nogueira-PI), quase 40 deputados federais e centenas de prefeitos espalhados pelo Brasil. Muitos outros virão até o dia do prazo de legalização do partido.
Jornal Extra – A adesão do vice-governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (ex-DEM) nas fileiras do PSD, preocupou as lideranças do Democratas em todo o País. O DEM está perto do fim?
André de Paula – Não acho que o Democratas esteja se acabando. Acho que ele está sendo repensado e irá se redimencionar. Vejo que o DEM tem um grande desafio. As pessoas que continuam no DEM e vão tocar o partido estão sendo chamadas a repensar a sua direção. Mas essa não será uma tarefa minha. A mim compete agora tocar, em Pernambuco, um projeto que já se mostra vitorioso no Brasil inteiro. A adesão de Raimundo Colombo significa o ingresso de um governador, 17 deputados estaduais, cinco deputados federais, 80 prefeitos, mais de 100 vice-prefeitos e um número grande de vereadores, em um Estado da Federação muito importante, que irradia a influência política, inclusive, na Região Sul.
Jornal Extra – Desde jovem, o senhor foi candidato a prefeito do Recife,deputado estadual e federal, sempre com o apadrinhamento do ex-senador e cacique do DEM, Marco Maciel. O que ele disse sobre sua saída do Democratas?
André de Paula – O ex-senador Marco Maciel é, e sempre será, uma referência na minha vida pública, pela forma com que se conduz e pelo espírito republicano, inclusive, pela doação integral que se entrega por completo a atividade pública. Ele serve, e não se serve. Enfim, ele sempre será um ícone na minha vida pública, independente, de eu não estar militando no mesmo partido dele. Mas o André de Paula, hoje, não é o mesmo André que ingressou no movimento jovem de 40 anos atrás. Hoje, tenho ao meu lado eleitores e lideranças políticas que acreditam nesse projeto, fazendo o meu projeto político o mesmo projeto deles nos respectivos municípios. Quando conversei com o senador Marco Maciel, a primeira observação que fiz a ele foi de que não estava consultando qual caminho iria adotar. Isso não seria justo. Essa decisão, necessariamente, deveria ser minha. Eu estava dividindo com ele a minha inquietação. Pela admiração, respeito e amizade que eu tenho por ele, estava dizendo as razões pelas quais inclinei – e posteriormente decidi – seguir um novo caminho. Ele, como grande amigo, excepcional caráter e que respeita os outros, ouviu, não me estimulou porque não poderia, mas também não me constrangeu nem dificultou a minha tarefa espinhosa. El acompanhou a minha vida pública e não me faltou mais uma vez.
Jornal Extra – Os analistas comentam sobre a possível fusão entre PSD e PSB. Já o futuro presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, afirma que não haverá fusão, mas aproximação com o partido de Eduardo Campo, que integra a base governista. Qual será a postura do PSD quanto ao PT?
André de Paula – É verdade. Existe uma aproximação política que agrada ao PSD e ao PSB, entre as principais lideranças dos dois partidos, de forma especial entre o governador Eduardo Campos e o prefeito Gilberto Kassab. Nós estamos trabalhando e tendo em conta a preocupação de harmonizar o nosso caminho e evitar conflitos, facilitando na nossa ação municipal e estadual o caminho que queremos trilhar juntos no futuro, nacionalmente. Há essa parceria e entendimento com Eduardo Campos. Em relação ao Governo Federal, a minha postura pessoal continua ser de oposição. No meu partido, muitas das lideranças que ingressaram estiveram ao lado da presidente Dilma Rousseff (PT), na última eleição. Por certo, isso vai ser refletido na atuação no Congresso Federal, Assembleia e Câmara Muncipal. Nosso partido não existia nas últimas eleições, portanto, não foi parceiro nem adversário da presidente. Acho que isso nos dá autonomia para estar ao lado do País e votar a favor e pelo melhor do Brasil. O futuro vai mostrar com maior nitidez o nosso posicionamento político.
Jornal Extra – Em sua opinião, a oposição esta ficando cada vez mais fraca. Isso não é perigoso para o estabelecimento da democracia no País?
André de Paula – Defendo a tese da existência de uma oposição para a fundamentação da democracia. Não há democracia sem uma oposição solidificada. Digo a você que, no meu ponto de vista, o Brasil precisa de uma oposição forte. Se um dia eu tiver a felicidade de participar de um Executivo, quer sendo prefeito ou governador, eu terei um respeito absoluto pela minha oposição. Ela é quem cobra, fiscaliza e aponta os desvios, permitindo a correção dos rumos. Acho que alguns partidos de oposição, no Brasil, estão vivenciando um desafio, diante da necessidade de repensar a sua atuação, se aproximando do cidadão. Hoje, essa distância com o cidadão dificulta o trabalho da oposição entre o que acontece nas Casas Legislativas e a vontade popular na rua. O desafio da oposição é reduzir a distância. Quanto mais próximo e maior for o reflexo do que pensa e sente o povo nas ações da oposição, mais forte ela será.
Jornal Extra – O senhor vai andar pelo Agreste e Sertão pernambucano, atrás de novas adesões às fileiras do PSD?
André de Paula – Ainda não, pois estou apenas há duas semanas a frente desse novo projeto. Mas estou recebendo no Recife lideranças de todo o Estado. Espero, dentro de trinta dias, quando o partido estará legalmente constituído, anunciar adesões de prefeitos, vice-prefeitos e muitos vereadores, além de lideranças municipais que estão ingressando no partido, para disputar pelo PSD as eleições municipais de 2012.
*André de Paula é ex-deputado federal e futuro presidente do PSD de Pernambuco
